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Home»Entretenimento»Ator Gabriel Leone entra em cena como cantor com grande álbum valorizado pela produção musical e pela alma do artista
Entretenimento

Ator Gabriel Leone entra em cena como cantor com grande álbum valorizado pela produção musical e pela alma do artista

março 9, 2026Nenhum comentário0 Visitas


Gabriel Leone encara repertório pautado pelo desamor em ‘Minhas lágrimas’, álbum orquestrado com produção de Marcus Preto e Tó Brandileone
Zabenzi / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Minhas lágrimas
Artista: Gabriel Leone
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ A despeito de já ter gravado músicas para trilhas sonoras de filmes e séries ao longo dos últimos dez anos, o ator Gabriel Leone somente entra de fato em cena como cantor com o lançamento do primeiro álbum do artista carioca de 32 anos. E já chega chegando.
Em rotação desde a última sexta-feira, 6 de março, em edição do selo MP,B, o álbum “Minhas lágrimas” é a prova de que mais valem um conceito e um intérprete sensível do que uma voz deslumbrante ou opulenta, mas sem alma.
Sim, Leone canta bem, é afinado e coloca apropriadamente a voz nas 10 músicas selecionadas no vasto baú de lados B da MPB. Contudo, o que eleva o álbum “Minhas lágrimas” são a inteligência do canto do intérprete – hábil no entendimento pleno do sentido dos versos a que dá voz – e a grandiosidade da produção musical orquestrada por Marcus Preto (principal incentivador do disco, no qual atuou como diretor artístico) e Tó Brandileone.
Cordas e metais são utilizados de forma por vezes suntuosa, mas sem exibicionismos gratuitos, sendo postos a serviço dos sempre certeiros arranjos executados pela banda formada por Agenor de Lorenzi (piano, órgão e sintetizadores), Fábio Sá (baixo), Filipe Coimbra (guitarra), Sidmar Vieira (metais), Tiago Costa (cordas e metais), Vitor Cabral (bateria) e Will Bone (metais), além do produtor musical Tó Brandileone na guitarra, nas percussões e no violão.
“Minhas lágrimas” é álbum situado no universo da MPB, mas também transita pelo rock de atmosfera indie. Essa conexão é evidenciada logo na primeira faixa do álbum, “Cara limpa” (Paulo Vanzolini, 1974), samba reconstruído por Leone com exuberante arranjo de tom inicialmente áspero e minimalista.
À medida que avança, a gravação de “Cara limpa” ganha o peso do rock e vai ficando cada vez mais encorpada com profusão de cordas e metais até voltar para o minimalismo do início, evidenciado na ênfase do toque do piano de Agenor de Lorenzi, fechando um arco condizente com o teor da música e do próprio álbum. “Posso lhe dizer que olho pra ela e nada sinto / Posso lhe dizer com a cara limpa enquanto minto”, canta Leone, vertendo no irretocável repertório de “Minhas lágrimas” o sentimento de resignação e/ou vazio que ecoa ao longo do disco.
“Minhas lágrimas” é álbum atravessado por desertos existenciais como o da música-título de Caetano Veloso, lançada pelo autor no álbum “Cê” (2006) e reavivada por Leone no fecho do disco, arrematando conceito que jamais se perde ao longo das dez faixas.
Se Leone interioriza no canto o sofrimento entranhado nos versos de “Choro das águas” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977), em arranjo que parece derramar as lágrimas do eu-lírico da canção, “Segredo” (1986) é desvendado pelo ator-cantor na sala escura do sentimento com suingue funky na introdução do arranjo que evolui sinuoso como o cancioneiro de Djavan, autor dessa balada de acento blues conhecida somente pelos seguidores mais atentos do compositor.
Em “Êta nóis” (Luhli e Lucina, 1984), Leone ameniza o sotaque caipira do tema, terçando vozes com Ney Matogrosso, intérprete original da música ambientada no universo rural recorrente na obra de Luhli & Lucina. Dentro do conceito afetivo do álbum, “Êta nóis” é a composição menos melancólica por lembrar que o fel da desamor um dia vira mel no milagre permanente da lida / vida.
Faixa que precedeu o álbum em single lançado em 5 de dezembro, “Nós dois” (Celso Adofo, 1983) descortina a beleza melódica e poética de canção sobre amor represado, entoada por Leone no devido tempo de delicadeza.
Não cabia na arquitetura de “Nós dois” a grandiosidade que desaba na introdução de “Antes da chuva chegar” (1976), balada angustiada do primeiro álbum de Guilherme Arantes, lançado há 50 anos. O arranjo evoca o universo meio prog do universo do cancioneiro de Arantes em meados dos anos 1970 em gravação que reitera a exatidão do canto de Leone.
Em “As portas do meu sorriso” (1979), Leone abre espaço para o canto agudo de Juliana Linhares, convidada da gravação de tom country-folk dessa música composta por Fagner com Paulinho Tapajós (1945 – 2013) por volta de 1971 e gravada pelos autores anos depois em dueto apresentado no álbum “Amigos e parceiros” (1979), de Tapajós.
Com alma de blues e aura de indie-rock, Leone encara o sentimento de inadequação e a fera da solidão no canto de “Assim sem mais” (João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão), música lançada por João Bosco no álbum “Zona de fronteira”(1991).
Na sequência, a gravação de “Bolero de Satã” (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976) corrobora a inteligência e a sensibilidade do canto de Leone no álbum. Afinado com o arranjo de timbres rascantes, o canto de Gabriel Leone verte lágrimas de sangue (sem cair no melodrama) no registro desse bolero difundido por Elis Regina (1945 – 1982) em feat com Cauby Peixoto (1931 – 2016) para o álbum “Elis, essa mulher” (1979). “Bolero de Satã” prepara o clima para o gran finale com a canção-título “Minhas lágrimas”, ouvida em registro quase épico.
Enfim, no resumo dessa ópera, Gabriel Leone nasce oficialmente como cantor em grande álbum em que põe a voz a serviço das canções com a sensibilidade que o guia na travessia pelos desertos da alma que chora pelo desamor.
Capa do álbum ‘Minhas lágrimas’, de Gabriel Leone
Zabenzi com arte de Lucas Pires

Fonte: G1 Entretenimento

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