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Home»Entretenimento»Crítico tem que respeitar o artista ao resenhar álbum que julga irregular, mas sem ceder à patrulha das redes sociais
Entretenimento

Crítico tem que respeitar o artista ao resenhar álbum que julga irregular, mas sem ceder à patrulha das redes sociais

março 26, 2026Nenhum comentário0 Visitas


Marina Lima lança o álbum ‘Ópera Grunkie’, alvo de debates acalorados nas redes sociais
André Hawk / Divulgação
♫ OPINIÃO
♬ É proibido proibir a crítica negativa! Na era da bajulação fake das redes sociais, em que artistas recebem diariamente uma profusão de elogios rasos de admiradores e colegas a cada postagem, críticos de música atravessam um chão repleto de cascas de banana quando entendem que um álbum está aquém da discografia de um artista e expõem esse pensamento em uma crítica.
Atravessei esse chão sem escorregar ao discorrer sobre o já controvertido 22º álbum de Marina Lima, “Ópera Grunkie”, apontando irregularidades do disco em resenha publicada nesta coluna no g1 na terça-feira, 24 de agosto. Ao longo dos últimos dos dias, ouvi comentários gerais de que o texto da crítica negativa era “respeitoso”, mas também não escapei de receber a pecha de “prepotente” em um comentário de leitor do X, praça de ódio no mapa das redes sociais.
Em janeiro de 2027, completarei 40 anos no exercício contínuo do ofício de crítico musical. Sei como funciona a reação de fãs e artistas de acordo com o tom do texto. Quando elogio um álbum com cotação alta, geralmente recebo elogios de que sou um crítico “sensível”, de que “entendi tudo”. Quando a crítica aponta defeitos e pode ser classificada como negativa, o autor do texto passa a ser alvejado com comentários do tipo “esse entende nada de música”. No meu caso, gay assumido, perdi a conta das vezes que ouvi dizer que era uma “bicha má” ou uma “bicha amarga”
Sempre foi assim desde que o samba é samba. Essas reações são da natureza humana. Mas piorou muito com o advento das redes sociais e, com a patrulha diária das redes, a crítica musical foi ficando desidratada a partir dos anos 2010.
Bajular passou a ser o verbo conjugado diariamente por amigos e seguidores dos artistas. Diante desse quadro desanimador, muitos críticos tendem a se retrair. É mais cômodo elogiar. Ou então manter um silêncio providencial sobre um disco ruim para evitar levar pedrada. Mas eu sou da tribo dos dissonantes, dos que sempre escrevem o que pensam, porque falar bem de tudo é banalizar o elogio, é ser injusto com os que realmente merecem ser elogiados.
Os dissonantes já são poucos. Mas (ainda) existem. Os profissionais do meio musical – incluídos aí artistas, empresários, produtores, assessores de imprensa – preferem evidentemente os que se calam. Mas, e aí mora a contradição humana, quase todos comemoram quando se deparam com uma crítica positiva de um dos dissonantes. Porque o leitor sabe quem é quem. Todo mundo sabe quem é quem…
No resumo da “Ópera Grunkie”, um crítico sempre tem que respeitar o artista sob qualquer circunstância ao discorrer sobre um single, EP ou álbum, sempre tendo em mente que o foco da crítica é o disco, não o artista, ainda que o criador tome as dores da criação. Mas jamais deve se curvar à patrulha das redes. Até porque o que se escreve nas redes nem sempre é o que se pensa. Quase sempre não é, eu diria. “A verdade da vida está no inbox do Instagram”, me disse várias vezes o DJ Zé Pedro.
Marina Lima construiu obra maior do que qualquer crítica ou critico. E o que fica é a obra. Críticos passam. Artistas morrem. O tempo espera por ninguém. Mas uma grande obra de arte desafia as leis do tempo e atravessa gerações, sobrevivendo aos criadores. O bom da era digital é que qualquer leitor de críticas pode ouvir o álbum assim que terminar de ler o texto e tirar as próprias conclusões. Ninguém é dono da verdade.
Quanto ao crítico, cabe unicamente ser honesto e, sim, respeitoso ao escrever uma crítica. O tempo é o senhor da razão e coloca tudo e todos – críticas, críticos, artistas e discos – no devido lugar.

Fonte: G1 Entretenimento

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